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Posts Tagged ‘vasco gato’

VI

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Que não te enganem
os que compram as horas por atacado
para do teu suor extraírem
a bandeira de um país que nunca será o da atenção
que nunca será o da morada
mas sempre e sempre
o território homeopático da extinção
em que os troféus são
joelhos vergados à condição de cera
para os soalhos do progresso
cujo verdadeiro nome é
despovoamento

Vender-te-ão o conforto
a perseverança       o brio
como se tivéssemos por fito
a acumulação do tempo
sem o fruirmos boca a boca
desesperadamente
garantir o futuro      dir-te-ão
sem repararem na estupidez do repto
pois que poder temos nós
sobre as válvulas biológicas
do nosso prazo
para nos arrogarmos a garantir
o que quer que seja
quanto mais o sumo fruto da inexistência
esse futuro-cano-enfiado-na-boca
para ser disparado sem falta
de manhã e ao deitar

Em volta sucedem-se clarões
e abismos inóspitos
os elementos torcem-se na pesca à linha
dos lugares fundamentais
há uma convulsão de panoramas
para o brevíssimo turismo
dos olhos
mas o importante é a matemática mesquinha
do sangue que furtamos uns aos outros
a medalha de carne pútrida
com que esperamos aparecer
na fotografia da época

Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar

[Vasco Gato, in Fera Oculta, douda correria, 2014]
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Alegria

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Que uma alegria seja o teu sustento.
Estende as mãos
E agarra-a ao passar,
Tal como o dançarino apache
Cinge a sua mulher.
Eu vi-os
A viver sem fim e a rir sem pejo,
Lançados a cantar sem parar,
Esmagados até ao coração
Sob as costelas
Por um amor terrível.
Alegria sempre,
Alegria em toda a parte –
Que a alegria te mate!
Põe-te a salvo das pequenas mortes.

[Carl Sandburg, in Antologia Poética,trad. Vasco Gato, Flâneur, 2017]

“Se eu agora parasse” de Vasco Gato

Abril 19, 2015 Deixe um comentário
Categorias:poesia Etiquetas:

2

Março 21, 2012 1 comentário

Quantas vezes ouvi o meu pai dizer:
não escolhas muito a roupa com que sais.
A bala que contorna a esquina
não se intimida com a beleza.

[Vasco Gato, de Scalinatella, in Napule, tea for one, 2011]
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Nenhum anjo…

Março 21, 2011 Deixe um comentário

Nenhum anjo, por mais desatinado, nos cobiçará. Esta cisterna humana engendrou doses sobrenaturais de tédio. Como se na agitação das matérias não houvesse alimento suficiente para o músculo da paixão. Isentos da plácida imortalidade dos anjos, despojamo-nos da fome dos sentidos. Vamo-nos deitando, lentos glaciares, numa desolação mais extrema que a ignorância da gravidade.

[Vasco Gato, Rusga, Trama, 2010]
Categorias:poesia Etiquetas:,

os livros não se constipam

Dezembro 4, 2010 Deixe um comentário

hoje, depois de, por necessidade, me ter deslocado a uma Baixa de Lisboa cheia de gente e carros, com anterior passagem por um Chiado com igual imagem, fui à São Filipe Nery, visitar a nova casa da Trama.

considero que aquele espaço reserva o essencial da livraria: as pessoas e os livros – por esta ordem, porque não há livros sem pessoas nem livrarias sem sorrisos.

entrei quando se conversava sobre o ainda hoje vanguardista Fernando Pessoa: voltamos sempre a ele, de alguma forma, pela tinta de alguém.

as pequenas prateleiras altas de um só livro exposto fizeram-me pensar: ainda bem que não se constipam. o Ricardo estava ali enregelado a conversar alegremente com uma rapariga… entrou uma outra e no fim puderam partilhar os três de um ponto comum: Nuno Bragança.

mas eu fui lá para ir buscar a última edição da livraria: “Rusga”, de Vasco Gato. (e trouxe mais “Entulho”, de João Miguel Henriques – a minha mania de querer saber que livro é aquele sem lombada.)

a Trama faz-me lembrar uma livraria de vão de escada, pela dimensão e estrutura, mas fria… muito fria. se calhar os vãos de escada são mesmo assim.

tenho para mim que nem sempre temos tudo, que temos tanto que não nos chega.

14

Março 21, 2010 Deixe um comentário

Desertei das falanges do ouro
para vir visitar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém,
os teus olhos silenciosos,
somando as imagens.
Qual pano,
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes.
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios.

[Vasco Gato, in Cerco Voluntário]

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