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45 …prazo não tem, diria o oráculo, mas há-de haver um

Março 21, 2011 Deixe um comentário

…prazo não tem, diria o oráculo, mas há-de haver um tempo, e o tempo cumprido excede a intenção, mina a a vontade, arruína o querer, moral da estória: o tempo em curso agora, a escolha, a escassa margem de algum porto de abrigo, liquidou os rumos, sumiu os prazos, anulou as apostas. nada de novo e assim recolhe o cágado ao escuro frio, digerir cansaços. e quando acorda e vai, não é, magrinho, refazer memórias, nem nada lembra já, o que o calor acorda é só o sangue, que se engrossou do que dormiu, esqueceu.

[Ruy Duarte de Carvalho, in Ordem de Esquecimento, Quetzal Editores, 1997]

Um anjo adorna o corpo e morde o chão

Abril 4, 2010 1 comentário

Um anjo adorna o corpo e morde o chão
por não ter porte para tamanhas asas.

Cresceram-lhe excessivas de soberba
e não cuidou do barro que as sustinha.

[Ruy Duarte de Carvalho, de Lavra Paralela in Lavra, poesia reunida 1970/2000]

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Março 21, 2010 Deixe um comentário

OUTRO

Sem família
nem etnia
sem fiança
nem finança
sem peso até
que dê
para perder
o pé

todo este circo
é feito sem rede.

Queda, portanto, não.

Sem rede
só.

[Ruy Duarte de Carvalho, in Ordem de Esquecimento]

Estas baías

Março 21, 2009 Deixe um comentário

I

Exponho a curva vencida do meu sexo
ao silêncio das aves e às marés
de chumbo desta ausência.

       … Estas praias exíguas…
       … O precipício e as brisas…
       … O dorso inerte destas águias lisas…
       … O sol à retaguarda
              e o mar virado ao leste…

A tarde cai na concha devoluta do meu peito.
Exausto me devolvo à pedra
e ao coração de um animal cansado.

II

Do alto da falésia
aguardo um breve instante de prenhez nocturna
que ao Continente me devolva inteiro.

Da noite eu sei
       todo o rumor da gesta mineral
       no acto de ferver as gerações passadas.

Deslizo a carne eréctil de uma orgânica torrente.

Estou no regaço vítreo dos desertos.

III

Da noite eu sei
— porque lhe estou a prumo no regaço
e a vejo prolongada pelos meus dedos
e dela me arborizo até ao florescer das madrugadas —

da noite eu sei — dizia —
que uma semente dada ao sol e às mãos
em carne há-de animar uma estação de águas e corpos, sucessões e bênçãos.

IV

Pelo que sei da noite
da sua orografia de vulcões expectantes
e da carnal leitura
de algumas profecias

       deste oriente vago me rejeito.

Assumo um corpo que armazena a noite
para expeli-la exausto e se encontrar
na identidade súbita da cor.

       Estou no regaço enxuto das manhãs
       estou no regaço vítreo dos desertos.

Floresço o breve instante das entregas.
Vou devolver-me ao ventre das nações.

[Ruy Duarte de Carvalho, de Tempo em ausência, in a decisão da idade]

voa cotovia, voa

Fevereiro 6, 2009 7 comentários

Enquanto escolhia o lote de livros presente na foto, um grupo de 3 pré-adolescentes entrou na livraria de rompante. Tinham sido assaltados. Um vinha a sangrar do nariz. Um outro perdeu casaco, iTouch e telemóvel. Esta trivialidade pareceu chocalhar os espíritos… pois a loja, até aí só com mais dois clientes e a rapariga que atende, começou a receber clientes em barda.

os meus saldos na Cotovia

Estes são os meus saldos da Livraria Cotovia. Fiquei contente. Houvesse mais dinheiro. A escolha era simples, mas ainda assim, muito ficou lá.

Quero mesmo ser muito ofensivo, por isso resolvi utilizar uma balança e os valores respectivos do lote de livros como manuseado e novo.

manuseados ou novos?

acorrer

Dezembro 11, 2008 Deixe um comentário

Que nos acorra a força de entender
a voz que emerge enfim das gerações
afundadas na noite e na surpresa.

Que nos acorra a voz que se alevanta
dos continentes todos onde exista
a voz antes cativa que a cobiça
espalhou com cega mão.

Ao grito universal que nos acorre
das latitudes onde um gesto audaz
ditou ao tempo a chama e a dimensão
da nova face alegre e libertada

[Ruy Duarte de Carvalho, in A Decisão da Idade – parte do poema “Remate – A decisão da idade”, voz do Herói]

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