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iii. Dois

Março 21, 2011 Deixe um comentário

Resta a solidão entre as luzes da noite.
O rastro acusador dos faróis dos carros, no regresso,
onde o encontro se rendeu ao auto-rádio que debita
o espaço e o tempo de uma realidade que não existe.
Que acontece após a separação, ao abrir a janela às lâminas
de vento e chuva, excedendo os limites de velocidade.

O rosto prossegue o prolongamento dos sinais.
Horas que habitou e que revelam, nessa luz, dias esgotados,
o percurso ilusório de um corpo, como um resto de inverno,
que se repete finito e sitiado.

Depois uma voz resignada, o nome impronunciado e o beijo
através da linha telefónica, a que lhe sucedde a queda,
o agundo silêncio entregue às arestas do quarto, nas sombras
que se transformam em visões inexplicáveis,
à setença do dia seguinte. A contínua transgressão.

[Rui Miguel Ribeiro, de Tríptico de Horas Falsas, in Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008]
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BERLIN (CAFÉ EINSTEIN)

Agosto 9, 2010 Deixe um comentário

Café, não Müller. Aqui decorre
uma variação desse exercício de luto,
onde me demoro com um copo de vinho
e os teus comentários que releio.

Nestas palavras provisórias
que se demoram a transformar
numa resposta, consumo o que aqui
não está, uma última dança nos
movimentos dos funcionários

neste espaço que se reordena, com
o arrastar de cadeiras, o bater
dos talheres e estalar de goma das toalhas.

Lá fora, no avanço meridional do verão,
p céu é uma longa sombra. Aqui são matérias
de despedidas, de aprendizagem

do que se arruína, aquilo com que me debato;
esta procura de sentir por ausência,
do que se sobrevive da beleza
que se destrói a cada morte.

E com as tuas palavras, essa tua última frase,
que me prende à erma terra destes versos
ao ver ir-se perdendo «toda essa gente
contemporânea que nos salva do tédio absoluto».

[Rui Miguel Ribeiro, in 38º (2ª edição)]

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VIII – o fruto

Março 21, 2010 Deixe um comentário

Registam a febre o coração.
Neste fim de março em que
não vejo árvores de fruto,
chegam-me as novas da minha
nespereira, pejada, dizem-me.
À espera, como o meu sangue,
de que a vida seja uma protecção
adocicada, carnuda e macia,
pronta a colher.

[Rui Miguel Ribeiro, in XX Dias]

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