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Posts Tagged ‘rui caeiro’

Um Momento na Noite

Março 21, 2012 1 comentário

(…) todas elas marchavam, ou por outras palavras, nenhuma ficava abandonada, esquecida ou encalhada, das mais feias às mais horrendas, das mais desnudadas às mais cobertas, das mais perfumadas às que já não tomavam banho há quinze dias – desculpa lá, querido, mas é que hoje não tive mesmo tempo – das mais bem pagas às mais baratas, das bem falantes àquelas cujo linguajar mais se assemelhava aos latidos de um cão vadio, ou às que não sabiam mesmo falar mas que importância é que isso poderia ter já que o momento delas tinha também chegado, o momento quando chegava era para todos, o mesmo instante fatal embora inesperado, o mesmo segundo ou fracção de segundo impossível de prever, dissimulado que estava por entre as luzes gritantes ou as brumas densas da noite (…)

[Rui Caeiro, excerto de Um Momento na Noite, in Um Momento na Noite, edição do autor, 2011]
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Como nunca tiveste um corpo…

Março 21, 2011 Deixe um comentário

Como nunca tiveste um corpo, como eras todo alma, agora estás lixado. A alma, de tão etérea, sempre morre. Só o corpo é imortal.

[Rui Caeiro, Olhar o Nada, Ver a Deus, Averno, 2003]
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As folhas das árvores não se suicidam…

Outubro 9, 2010 Deixe um comentário

As folhas das árvores não se suicidam, para cair levam todo o tempo que é preciso — e no chão ainda bailam se é Outono e o vento as convida.
Os animais não são muito dados a tais excessos, nem suicidas nem bailadores.
Os homens é o que se sabe.
Mas tu, Senhor, tiveste a morte resignada e porventura sábai dos velhos que duram muito para além do razoável, quando já nada na vida faz sentido e eles tão-pouco — e eles menos ainda — e quanto menos sentido fazem mais à vida se agarram.

[Rui Caeiro, Olhar o Nada, Ver a Deus, Averno, 2003]
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os amantes entredevoram-se alegremente

Abril 18, 2010 Deixe um comentário

os amantes entredevoram-se alegremente
não é verdade o seu amor de corpo inteiro
é verdade o amor não o seu corpo inteiro
lá onde estejam e por uma sorte obscura
que a cada um ultrapassa ó alegria animal
um ao outro abocanham-se pedaços reciprocamente
se arrancam seios narizes cabelos olhos
membros sorrisos línguas bocas entreabertas
é alegre e despreocupadamente que o fazem
e assim incansáveis todas as horas dos seus dias
um ao outro devoram-se e depois mais lentos
digerem devoram e digerem lambem e esquecem

[Rui Caeiro, in Livro de Afectos]

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a clareira

Março 21, 2010 1 comentário

Poemas rodearam-no de todos os lados, não havia por onde fugir. Estava como aquela virgem perdida na floresta que chega a uma clareira e começa a ver os meliantes. Vêm sem pressa, paulatinamente. Olha-se-lhes para a cara, entende-se-lhes logo o jogo. Conformada, nos olhos da inteligência da situação e a vaga luz de uma remotíssima alegria – a do dever a cumprir – prepara-se para abrir as pernas. Assim estava ele nesse dia. Sem saída possível, sem escapatória. Só lhe restava mesmo escrever, escrever como um danado. Poemas que sugerissem o bailado das chamas que dá vida ao inferno. Meio conformado, meio alvoroçado, preparou-se. Para a poesia, para que ela
entrasse
ou saísse
ou saísse e entrasse
ou fizesse o que ela quisesse.

[Rui Caeiro, in Telhados de Vidro nº 12]

Já não recordo o elenco dos pecados mortais.

Março 21, 2010 Deixe um comentário

Já não recordo o elenco dos pecados mortais. Será que a curiosidade era um deles? Não me admirava nada. E a indiferença?

De uma para a outra, o lento ondular da tua marcha.

[Rui Caeiro, in 49 Espinhas para um Gato]

Andorinhas

Março 21, 2009 Deixe um comentário

Regressam pela Primavera, todos os anos, as mesmas
ou outras, a desenhar no ar hieroglifos que ninguém entende.

[Rui Caeiro, in O Carnaval dos Animais]

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