Arquivo

Posts Tagged ‘o ofício de viver’

25 de Dezembro de 1937

Dezembro 25, 2008 1 comentário

Com amor ou com ódio, mas sempre com violência.

Ir para o confino não é nada; voltar, é atroz.

O homem-massa não devia ser o rufia, mas o disciplinado. Não sou um nem outro.

Há uma coisa mais triste do que envelhecer: permanecer criança.

Se foder não fosse a coisa mais importante da vida, o Génese não começaria por aí.

Naturalmente, todos te dizem «que importa? Não é a única coisa que existe. A vida é vária. O homem vale por outras coisas», mas ninguém, nem mesmo os homens te lançam um olhar, se não tens aquela potência que irradia. E as mulheres dizem-te «que importa?, etc.», mas casam com outro. E casar quer dizer construir uma vida. E tu nunca a construirás. Isto significa ter sido criança demasiado tempo: exactamente.

Se a coisa correu mal com ela, que era todo o teu sonho, com quem é que poderá jamais correr-te bem?

Recordas-te dos teus sonhos de casas proletárias e límpidas, das corridas sob as árvores de um prado, da fria cidade sob as montanhas, dos domingo errantes em direcção à praça, pisando o calcetado das ruas; e, depois, do teu sonho dilacerante de companheiras piemonteso-internacionais, raparigas que vivem sós e trabalham, de plebeia elegância e serenidade, e, depois, de toso os poemas do primeiro ano, que ficaram para sempre aniquilidados naquele 9 de Abril? A tua juventude não cabe toda inteira no cinema e na Praça Statuto? morta, absolutamente morta?
Recordas-te de como pensaste na Praça Statuto quando estava em Brancaleone?

Era precisamente a ti que devia acontecer o teres concentrado a vida toda num único ponto, e depois descobrir que podes fazer tudo, salvo viver aquele momento.

Afinal de contas, hoje são 25. E ela está na montanha. Houve um dia 25 em que ela não foi. Não é verdade?

Que importa viver com os outros quando cada um se está nas tintas para o que é importante para os outros?

Para agradar aos homens é preciso professar o que cada um desses homens repudia e odeia na sua vida secreta.

+Falhaste no amor-plenitude com esta. Quem te poderá dar o amor-remedeio? Nenhuma, uma vez que até esta, que te rejeitou porque a plenitude era impossível, encontrou o amor-remedeio com outro.+

Sinceramente. Preferia morrer a receber esta notícia a respeito dela. Neste momento gostaria de acreditar em Deus para poder orar. Que não morra. Que nada lhe aconteça. Que tudo seja um sonho. Que haja sempre um amanhã Que desapareça antes eu.

Uma só criatura ensina mais do que cem.

[Cesare Pavese, in O Ofício de Viver
tradução de Alfredo Amorim e +Margarida Periquito+]

Anúncios

19 de setembro de 1938

Setembro 19, 2008 Deixe um comentário

os homens que têm uma interior tempestuosa e não procuram um desabafo na palavra, ou na escrita, são simplesmente homens que não têm uma vida interior tempestuosa.

dêem uma companhia ao solitário e ele falará mais do que qualquer outro.

[Cesare Pavese, in O Ofício de Viver]

%d bloggers like this: