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Posts Tagged ‘miguel martins’

Às vezes, preciso ler dias seguidos sem atentar ao mundo

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Às vezes, preciso ler dias seguidos sem atentar ao mundo,
deambular por tempos e lugares e ser um corpo outro,
não o meu. Preciso de mares revoltos na bonança
ou de uma breve lagoa polinésia
quando por aqui estala um pandemónio
e já não há quem ature esta algazarra.
Um refúgio, é certo, uma fraqueza por postais ilustrados,
cores retocadas, trajes tradicionais, a fala rija e doce
de um boieiro bretão.

Acompanha-me agora –
não te levo pela mão, por falta de fortuna,
mas peço que me embales nessa ladainha
que chega da janela ao bateres os tapetes.
Também tu viajas, sem precisares de livros,
talvez para o mesmo sítio, talvez também comigo.
Limpas-me o pensamento, ofereces-me a modorra,
o bem mais precioso nestes dias febris.

Também tu, meu amor, nasceste no exílio.

[Miguel Martins, in O caçador esquimó, Fahrenheit 451, 2017]
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E se as aves estacarem em pleno voo…

Março 21, 2018 Deixe um comentário

E se as aves estacarem em pleno voo e ficaram imóveis
na pintura de Deus? E se Deus estiver indisponível
e a remoção do corpo não remover o olhar? E se ficarmos
para sempre olhando aquela imagem feita de azul e branco
e negro, desbotados por um sol manso, de esperança
ainda em esboço?
E se a Eternidade for um jogo de xadrez
perpetuamente empatado, uma água
estagnada que
enverdece como os cobres de uma
casa abandonada?
É provável que o encanto seja fraco descanso, que o tédio
sobrevenha ao veraneante, que a trocaria por uma hora
de juventude, de joelhos esfolados pelo asfalto de uma queda
logo erguida num sorriso rompante. É provável que desejemos
apenas morrer e o desejemos muito, como se aquele sefgundo, em que a respiração se suspende dando início ao orgasmo
pudesse durar para sempre, não como um travelling
sobre a pradaria da irrelaidade, mas como um corte abrupto
que, gloriosamente, não deixa qualquer questão nas ideias
dos néscios. Sim, esperemos que o Céu [nos ofereça] um spaghetti western.

[Miguel Martins, in Cidade Nua – Revista de Palavra e Poesia #2, CTL, 2016]

24 – DOS & DON’TS

Março 21, 2012 1 comentário

Não quero aumentar o tamanho do meu pénis.
Não quero habilitar-me a uma fantástica bimby.
Não quero passar um fim-de-semana num magnífico hotel da parvónia.
Quero que metam a internet, de uma ponta à outra, pelo cu
e, já agora, a rádio, a televisão e os jornais (rotativas incluídas).
Quero um mordomo, isso quero, de libré,
para me fazer mayonnaise e ler a Bíblia;
um harém, de faces trigueiras e rosadas,
que saiba amar e cultivar legumes;
e quero, sobretudo, o som do mar
agora e na hora da minha morte.

[Miguel Martins, in Lérias, Averno, 2011]

26 / 27

Março 21, 2011 Deixe um comentário

26

O TABERNEIRO hoje está risonho — trouxeram-lhe pornografia fresquinha e ele gosta disso. O pior é a família, aburguesada, censória… Terá de escondê-la, como aos goles pela garrafa, de meia em meia hora. É triste um adulto ter de esconder as mãos.

27

O TABERNEIRO hoje está tristonho — apercebeu-se de que a revolução foi um nado-morto. E se ele gostava dela! Viverá escondido, como quem toca à punheta. É triste um adulto ter de esconder as mãos.

[Miguel Martins, in O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010]

V

Outubro 5, 2010 Deixe um comentário

Eis, então, o meu pior sentimento. Não espantar para não romper a monotonia. A minha, a geral. Nisto não há nobreza. Há uma certa ideia de conforto. De preguiça. Nem asco nem galo de três patas nem dúvida instilada nem o Céu entrevisto. Para melhor, bem basta assim. O medo da felicidade em gérmen. Refúgio na exigência da instantaneidade impossível. Transferência da obrigação. Da responsabilidade. Assobio incompetente. Farrapo de assobio. Fio pendendo de um farrapo de dor. Nisto há verdade. E, se a verdade não é nobre, respondo: e depois? A verdade é como os fungos, parasitas e decompositores, que ora envenenam ora são regalo. A nobreza – diria a Anna – é o doce de amora com chá. Pressupõe confecção e fermentação e, descansando, antecipa uma qualquer outra acção construtiva. Da capo. Dá náuseas. Bastam-me as bagas, tantas vezes amargas, tal qual Deus no-las dá. Vós, como vos quero. Exijo. Deu-La-Deus esmoleres. A dádiva esfaimada. A mentira da verdade. Deu-La-Deu. Martins.

[Miguel Martins, O Caso da Fruta, de Proibida a Entrada a Animais (excepto cães-guia), Língua Morta, 2010]
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DO CAMPO DE SANT’ANA À RUA DO CAPELÃO

Outubro 2, 2010 Deixe um comentário

para o Miguel Martins, em noite de ébria e partilhada olissipofilia

Amália, Luís de Camões, Wenceslau
de Moraes, Fernando Maurício, a Severa.
Poderíamos ter continuado assim
durante a noite inteira, à procura de lápides
e sepulcros que a cidade de Lisboa guarda.

Mais sábio, o teu álcool escolheu como
último destino uma fonte manuelina,
e deixou para trás azulejos barrocos,
velhas mansões em ruínas, a imagem
quase dolorosamente bela da rua do Capelão
às duas da manhã, quando as janelas se apagam

e o mundo, só para te contrariar, parece habitável.

Post roubado ao Miguel Martins, a quem foi dedicado este poema inédito.

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17 RESPOSTAS POSSÍVEIS À PERGUNTA (BASTANTE ESTÚPIDA, ALIÁS) «QUAL É O TEMA DA SUA POESIA?»

Maio 15, 2010 Deixe um comentário

para o Miguel Martins

É sobre os problemas de auto-estima das bonecas insufláveis.

É sobre a vantagem das navalhas em relação às máquinas de barbear.

É sobre os efeitos da nicotina no acasalamento de lagartixas.

É sobre Super Bock, Famous Grouse e, em dias melhores, Glenlivet.

É sobre as ruas de Lisboa, quando as acho suficientemente tristes.

É sobre o nada, minha única «matéria» (Drummond).

É sobre tremoços, amendoins e Domenico Scarlatti.

É sobre as alterações climatéricas no Bairro da Serafina.

É sobre gatos mortos e outros que ainda não morreram.

É sobre os seios de Jeanne Hébuterne e as mãos de Glenn Gould.

É sobre o bife de lombo à portuguesa do Trivial e os filetes de polvo do Apuradinho.

É sobre política internacional, obviamente.

É sobre a cona da tua mãe, leitor.

É sobre a minha vida, que nunca daria uma telenovela.

É sobre Copenhaga, Barcelona, Madrid, Paris e Celorico da Beira.

É sobre cáries dentárias, fundamentalmente.

É sobre coisas que preferia ter calado.

M.F.
Trivial, 7.05.2010, depois de meia garrafita de Monte Velho tinto

Post roubado ao Miguel Martins, a quem foi dedicado este poema inédito.

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