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Posts Tagged ‘manuel de freitas’

Biblioteca da Nazaré

Março 21, 2018 Deixe um comentário

para a Bela e o Norberto Isaac

Não houve massa de polvo, desta vez. Ao fundo,
a voz de Leonard Cohen morria agora para
sempre – e a sala estava inesperadamente cheia.
Pouco soube dizer do «longo corredor vazio» em
que se transformou a minha poesia. Mas fiquei
a saber que das piteiras do Sítio se faziam
pranchasa improvisadas que as ondas,
em dias melhores, aceitavam.

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As pessoas presentes garantiram-me, quase
indignadas, que nunca houve ciganos no Sítio.
Como se a infência e verdade pudessem ser
sinónimos. A Inês teve mais sorte: ninguém
questionou a sua «Primeira História de Portugal».
As pessoas, desde sempre, lidam muito mal
com a realidade. Preferem mitos e milagres
mais amenos

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Jantámos n’O Bartidor, por conselho do Jaime,
quando tudo parece falecer: a Casa Aleluia,
o Tabares, o peixe que antes secava apenas
e que se vai tornar em breve uma espécie
de museu, indecoroso. Entretanto,
senhor Federico, parou de chover.

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Uma lua enorme abate-se sobre um mar de prata,
ilumina devagar os poucos anos que nos restam.
Mas sabe tão bem revê-la, sentado nesta varanda.

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Há um barco sem remador em tudo
o que vos digo, encalhado
na Rua do Horizonte.

 

[Manuel de Freitas, in Postas de Pescada #10, Dezembro/2016]
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Parque

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Tens razão: os beijos ao sol
são diferentes, Há para todos
os gostos, sobretudo porque os gostos
se desenvolvem a partir do que existe.
Mas tínhamos prometido abandonar
estas análises.

Estava a pensar na morte.
Passa um homem muito satisfeito
com os seus brinquedos, sem fazer perguntas.
E aí brilham umas jovens
transgressoras, por um momento,
antes de desaparecerem.

[Mariano Peyrou, in Telhados de Vidro #10, trad. Manuel de Freitas, Averno, 2008]

MOTET POUR LES TRÉPASSÉS

Março 21, 2012 1 comentário

Este poema seria teu, Inês,
se não fosse de ninguém.
Ao chegarmos a Lisboa,
depois da paragem ritual
no Café Lisbela – onde tudo
se compra e tudo se perde -,
vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.

A poucos metros dali, o meu pai
morria, tentava penosamente resistir
a uma hemorragia cerebral. Mas
isso, claro, ninguém precisa saber.
Apenas tu, poema, que vieste de comboio
confirmar dia após dia que o Tejo
está onde sempre esteve: triste, azul, parado.

[Manuel de Freitas, in MOTET POUR LES TRÉPASSÉS, Língua Morta, 2011]

Haiku da Rua do Teixeira

Março 21, 2011 Deixe um comentário

— para a Fátima Maldonado e o José Amaro Dionísio —

De nada serve, afinal,
esta cidade indefesa
a que chamamos vida.

[Manuel de Freitas, in A Nova Poesia Portuguesa, Poesia Incompleta, 2010]

poemas com cinema

Novembro 19, 2010 Deixe um comentário

uma das próximas edições da Assírio e Alvim é a antologia “poemas com cinema” (brochado/ 208 pp/ €14).

«Sendo as relações da poesia com o cinema menos evidentes do que aquelas que aproximam a narrativa literária da narrativa cinematográfica, e também menos estudadas, talvez esta antologia possa contribuir para dar maior visibilidade a um diálogo certamente muito mais profícuo do que à primeira vista pode parecer. A poesia moderna e contemporânea tem sido, embora no terreno que lhe é próprio, uma arte da imagem e da montagem — ou então uma arte que, apesar de dominantemente lírica, não exclui a narratividade. Mesmo se a palavraimagem traduz universos conceptuais e técnicos diferentes em cada uma das duas artes, mesmo se a sintaxe entre as imagens se faz de forma diferente, mesmo se é diferente o modo de narrar ou de articular expressão e imagem — e não sendo da mesma ordem a visualidade que o cinema e a poesia podem proporcionar —, o fascínio pela imagem, a importância atribuída à relação entre as imagens e ao seu poder evocativo justificam a cumplicidade tantas vezes evidenciada nos poemas agora reunidos. Por outro lado, importará observar que, mesmo quando a poesia não se aproxima do cinema em função da imagem e da montagem, pode ainda procurá-lo por razões de ordem temática, ou porque a narrativa fílmica lhe abre novos caminhos no que respeita ao cruzamento entre lirismo e narratividade.»

Org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo

Os autores presentes são:

Herberto Helder
Edmundo de Bettencourt
António Franco Alexandre
Ana Hatherly
Mário Cesariny
Fernando Assis Pacheco
Armando Silva Carvalho
Alberto Pimenta
José Mário Silva
Gastão Cruz
Alexandre Pinheiro Torres
Pedro Mexia
José Miguel Silva
António Botto
Jorge de Sena
Pedro Tamen
Alexandre O’Neill
Eugénio de Andrade
João José Cochofel
Luís Quintais
Manuel de Freitas
Inês Lourenço
Ruy Belo
Jorge Sousa Braga
José Alberto Oliveira
Ruy Cinatti
Fátima Maldonado
Raul de Carvalho
José Miguel Silva
José Tolentino Mendonça
João Lopes
Carlos de Oliveira
José Gomes Ferreira
Alexandre Pinheiro Torres
Maria Andresen
Fernando Pinto do Amaral
Gil de Carvalho
Manuel António Pina
Luís Quintais
Adília Lopes
Fernando Guerreiro
Helder Moura Pereira
Ana Paula Inácio
Fiama Hasse Pais Brandão
Daniel Jonas
Luiza Neto Jorge
Luís Miguel Nava
Al Berto
Rui Lage
António Osório
António José Forte
Nuno Júdice
Vasco Graça Moura
Ana Luísa Amaral
Miguel-Manso
Manuel Gusmão

Talvez a melhor justificação para esta antologia esteja no modo como os poemas agora reunidos ilustram diferentes formas de diálogo da poesia portuguesa dos séculos XX e XXI com o cinema. A amplitude docorpus poético aqui apresentado e a diversidade das poéticas nele envolvidas comprovam que o cinema tem merecido uma atenção continuada por parte dos poetas portugueses. Foi a esta cumplicidade que procurámos dar relevo.

DO CAMPO DE SANT’ANA À RUA DO CAPELÃO

Outubro 2, 2010 Deixe um comentário

para o Miguel Martins, em noite de ébria e partilhada olissipofilia

Amália, Luís de Camões, Wenceslau
de Moraes, Fernando Maurício, a Severa.
Poderíamos ter continuado assim
durante a noite inteira, à procura de lápides
e sepulcros que a cidade de Lisboa guarda.

Mais sábio, o teu álcool escolheu como
último destino uma fonte manuelina,
e deixou para trás azulejos barrocos,
velhas mansões em ruínas, a imagem
quase dolorosamente bela da rua do Capelão
às duas da manhã, quando as janelas se apagam

e o mundo, só para te contrariar, parece habitável.

Post roubado ao Miguel Martins, a quem foi dedicado este poema inédito.

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SUPERMERCADO

Setembro 16, 2010 Deixe um comentário

— para a Ana Paula Inácio —

Tenho 38 anos e sei finalmente o que
quero. Basta olhar para o cesto
de compras: bolachas Leibniz, papel
higiénico Renova, leite com chocolate
Agros, uma garrafa de Famous Grouse
e pelo menos seis latas de Superbock.
Discos já tenho que cheguem, por muito
que me desminta, e não viverei o suficiente
para ler todos os livros que me ocuparam a casa.

É um bocadinho banal, eu sei, mas é a minha
prestação diária enquanto consumidor, o meu fado
simples, enxuto, quase isento de lágrimas & remorsos.
Acordo para almoçar no Doce Lindo (ou Doce Belo, ainda
não houve rotina que me fizesse decorar o nome),
passo pelo supermercado, onde desejo ou nem por isso
todas as ternas e voláteis isildas deste mundo perfeito
— e volto a subir devagar as escadas de madeira rombas.

Só muitas horas depois, quando as luzes
me garantem que o bairro inteiro dorme,
escrevo poemas como este, versos em que
inutilmente vos digo que sou um homem feliz,
un roseau pensant, o mais belo cadáver de Lisboa.

[Manuel de Freitas, A Nova Poesia Portuguesa, Poesia Incompleta, 2010]
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