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A cada passo perde a sombra em rua escura

Março 21, 2011 Deixe um comentário

A cada passo perde a sombra em rua escura
o sino brilha, sacudido, na trapeira;
e esses olhos que um anel de fogo arrasta
prendem a cobra decepada a uma garganta

Ainda a neve te deixasse ver a rua
(e os recessos da vigia desprendessem
o som dos élitros, antenas e mandíbulas
que desesperam como deus por sangue e seiva)

Assim ouvias as imagens contra o vidro,
o estribo d’oiro que brilhava em pele sorvida,
os dedos hábeis mergulhados numa veia

E lá no fundo, sob o arco do mar alto,
as borboletas ocultando a lamparina,
a cicatriz de uma lanceta no pescoço

[Luis Manuel Gaspar, Pandora, Averno, 2003]
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o que não queima o coração

Fevereiro 11, 2009 Deixe um comentário

Poderás morrer de sede sob o candeeiro
quando se desmancham os insectos
na mistura do tabaco.
Poço riscado pelos dedos que seguram
a mortalha, a água onde retine
o que não queima o coração

Como esta paisagem, nítida não era a flor nascida
de vermelhos troncos, a ramagem espessa.
Cargas líquidas tingidas que passam para nunca mais;
relógio desactivado, assim pudesse
romper a ponte destas horas que não cessam:
alados, iludidos insectos,
transparências.
«Nunca o teria feito por menos»
um enxerto vegetal acerta ainda a outra banda
de navios negros, segregados
ao ouvido

Luís Manuel Gaspar, excerto de LVMINARIA

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