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Posts Tagged ‘luís manuel gaspar’

Primavera

Março 21, 2018 Deixe um comentário

As heras de outras era água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
– Sangue feroz do tempo possuído

[Sophia de Mello Breyner Andresen, de “Livro Sexto” in Obra Poética II, editorial caminho, 1991]

(LIVRO SEXTO) Embora sendo a sétima obra de poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, justifica o título pelo estatuto especial do volume anterior –
O CRISTO CIGANO -, referido pela autora em Arte Poética IV
(D 78, OP 846) não como «livro» mas como «poema longo», resultante da organização de «vários poemas soltos» escritos sobre uma história que lhe foi contada pelo poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto.
LIVRO SEXTO teve seis edições autónomas (…). Foi incluído, com novas variantes, em OBRA POÉTICA II, Lisboa Editorial Caminho, 1991

[Luís Manuel Gaspar, in Algumas notas à «Obra Poética» de Sophia de Mello Breyner Andresen, Pianola, 2013]
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A cada passo perde a sombra em rua escura

Março 21, 2011 Deixe um comentário

A cada passo perde a sombra em rua escura
o sino brilha, sacudido, na trapeira;
e esses olhos que um anel de fogo arrasta
prendem a cobra decepada a uma garganta

Ainda a neve te deixasse ver a rua
(e os recessos da vigia desprendessem
o som dos élitros, antenas e mandíbulas
que desesperam como deus por sangue e seiva)

Assim ouvias as imagens contra o vidro,
o estribo d’oiro que brilhava em pele sorvida,
os dedos hábeis mergulhados numa veia

E lá no fundo, sob o arco do mar alto,
as borboletas ocultando a lamparina,
a cicatriz de uma lanceta no pescoço

[Luis Manuel Gaspar, Pandora, Averno, 2003]

o que não queima o coração

Fevereiro 11, 2009 Deixe um comentário

Poderás morrer de sede sob o candeeiro
quando se desmancham os insectos
na mistura do tabaco.
Poço riscado pelos dedos que seguram
a mortalha, a água onde retine
o que não queima o coração

Como esta paisagem, nítida não era a flor nascida
de vermelhos troncos, a ramagem espessa.
Cargas líquidas tingidas que passam para nunca mais;
relógio desactivado, assim pudesse
romper a ponte destas horas que não cessam:
alados, iludidos insectos,
transparências.
«Nunca o teria feito por menos»
um enxerto vegetal acerta ainda a outra banda
de navios negros, segregados
ao ouvido

Luís Manuel Gaspar, excerto de LVMINARIA

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