Arquivo

Posts Tagged ‘louise cole’

O navio que ensombra

Dezembro 12, 2010 Deixe um comentário

Onde é que ele foi? O seu lugar está vazio,
uma bandeira flutua no céu, sem vozes
para praguejar ou questionar –

terá admitido a derrota? ondas suaves interrompidas
pelos seus pensamentos, pelo seu corpo – será que nos falta
a sua graça, o seu pensamento a liderar?

O vento provoca violentamente os convés de cima,
aqui e ali os homens em pé como soldados,
as mulheres, enroladas em xailes e silêncio, tremem.
perscrutando o frio e o viscoso mar.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
Anúncios
Categorias:poesia Etiquetas:

Comunicado

Dezembro 11, 2010 Deixe um comentário

O anjo pessoal,
cujos santos testículos
se penduram à vista do céu,

segura-te tão junto a si
que parecem amantes.

Alimentei-me da sombra,
deleite-me nela, banhei-me.

Sonhei que um anjo me agarrou a mão,
puxou-me por aí, não para cima.
As suas mãos eram ásperas
e ele cheirava a chuva.

Tempo ameno –

eras tu? Gata rápida
e selvagem –

engraçado como as coisas mudam!
Respiro ao longo do espelho
de aniversário que não contaste,

um dia serei mais velha do que tu.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
Categorias:poesia Etiquetas:

Parar o tempo

Dezembro 10, 2010 Deixe um comentário

O dia é longo,
se quero ver-
-te outra vez preciso contar
cada hora        como se fosse um dia,

cada dia transforma-se
num ano. Lembrar-
-te-ia, calma,
voz dura,

cada ano
uma ponte
ainda por terminar:
procuro por ti.

Quando os ramos crescem
prateando o céu,
tenho que fechar os olhos,
telefono-te mais tarde.

Para te encontrar,
aparo cada segundo,
divido-o, escrutino-o,
partícula tua        olho
as tuas mão e o cabelo.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
Categorias:poesia Etiquetas:

Carta

Dezembro 9, 2010 Deixe um comentário

Querida Alicia,
Esta tarde, quando acordei, nada tinha mudado.
Tu ainda estavas morta.
Não tinhas regressado, soltando o frio do
teu cabelo, abraçando-te para espantares o gelo do corpo.

É quinta-feira com probabilidades de neve.
Os meus pés frios, como os teus. Prometi-
-te um livro, mas comboios de ideias ficam
presos em lugares recicláveis e viajam, e
não falam comigo. Nunca chorei.

Fiquei chocada, a dor seca chegou e, depois,
bruscamente, nada. Ainda estavas morta,
algures, o corpo alimentado-se de uma luz
que não podia aquecer-te. Uma tarde aborrecida
quando acordei e não estavas aqui para conversarmos.

A descrença puxou de uma cadeira, pôs o seu casaco preguiçosamente
na nuvem de pó duma mesa, tossiu e sorriu.
A minha cabeça livre da turbulência dos pensamentos, poderia
lembrar-me de ti? Não. Eu não conseguia ver a imagem de um rosto
ou ouvir um riso –

ó, Allie, se pudesses estar aqui
para perseguir o ar cruel que me acordou
e não eras tu, desculpa-me por estar atrasada.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
Categorias:poesia Etiquetas:

Outro dia

Dezembro 8, 2010 Deixe um comentário

Depois comecei a pensar em ti.
Outro dia, outra corrida.
Nem toda a resposta foi a certa.
Conto os minutos.

Amanhã, mesmo os meus sonhos de ti acabarão.
Não procurarei por ti naquele autocarro
ocupando lugares vazios para ires às compras na cidade.
Não voltarei a rir para aquela escultura.

Tudo será fácil, quando não for.
Outro dia, outro rosto.
Falo devagar. Não tenho irmã.
Os minutos.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
Categorias:poesia Etiquetas:
%d bloggers like this: