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Posts Tagged ‘ernesto sampaio’

Perda

Março 21, 2011 Deixe um comentário

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida

[Ernesto Sampaio, de Saldos, in Feriados Nacionais, Fenda, 1999]
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O amor é o único mito

Março 21, 2010 Deixe um comentário

      O amor é o único mito de pura exaltação que a humanidade conheceu. O único que parte do coração do desejo e visa a sua satisfaçao total. O único grito de angústia capaz de se metamorfosear em canto de alegria. Com o amor, o maravilhoso perde o carácter sobrenatural, extraterrestre ou celeste que possui em todos os mitos, regressando de algum modo à sua origem para se inscrever nos limites da existência humana.
      Dando corpo às aspirações primordiais do indivíduo, o amor oferece uma via de transmutação que culmina no acordo da carne e do espírito, tendente a fundi-los numa unidade superior. O desejo, no amor, longe de perder de vista o ser da car que lhe deu origem, sublima o seu objecto numa espécie de sexualização do universo que restabelece no homem uma coesão anteriormente inexistente.
      O amor não admite a menor restrição: tudo ou nada, sendo o tudo a vida e o nada a morte.

[Ernesto Sampaio, in Fernanda]

diálogo

Março 21, 2010 Deixe um comentário

– O que é o tempo?
– Um martelo de plumas.

– O que é a vida?
– A eterna ausente.

– O que é a família?
– Uma catástrofe. Loucura circular histérica com convulsões de penitência.

– Quem é Deus?
– Um pobre Diabo.

– Que faz ele?
– Sobrevive sempre às suas vítimas.

– Onde mora?
– Num tinteiro.

– O que é Portugal?
– Uma cave cheia de mofo.

(com João Rodrigues)

[Ernesto Sampaio, in Lembranças do Cadáver-Esquisito de Feriados Nacionais]

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