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Quiseste calar a música por julgares traição

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Quiseste calar a música por julgares traição
escutá-la quando tudo o resto emudecia.

Ainda ouvias canções com um prazer à flor da pele,
desfasada da dor que te atingia num bloco mudo
de palavras subterrâneas a lutarem entre si, incapazes
de formar uma declaração de paz ou guerra.

A vida parecia ter-se esgotado numa massa
a pressionar o coração anormalmente soterrado,
não desenvolvia mais as suas linhas soltas,
o tempo acumulava-se sobre a contusão,
uma camada de horas supérfluas que te asfixiava,
sem traçar um novo ciclo a partir da corola da ferida.

As batidas do coração começavam a parecer-te
excessivas, uma sobrevida quando tudo à volta morrera
e era preciso calá-las para te sintonizares
com a terra fenecida que te lembrava um berço parado.

Batimentos, melodias, canções: haveria que silenciar
tudo para não teres o prazer da sua escuta
enquanto emudecia ou vozeava a dor,
para que nenhuma beleza pairasse vã no ar.

[Catarina Costa, in Chiaro Scuro, douda correria, 2016]
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Graça

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Mais tempo gasto, admito, a passar
mal por relativo amor e altivez
do que afazer política
e prezo sobre o consenso
o rasgo original.

demo-crítica:
tísica herança do burguês
de génio que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal
e deixa que o isente a lucidez
da rota rigorosa da unidade
além da sua esfera. Mais consola

levantar os óculos à verdade
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura onde não rola nada
exceto, além das massas, o sublime.

Precário verso se
o gesto não
redime paira só
na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária
sem assombros.

[Margarida Vale de Gato, in lançamento, douda correria, 2016]

VI

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Que não te enganem
os que compram as horas por atacado
para do teu suor extraírem
a bandeira de um país que nunca será o da atenção
que nunca será o da morada
mas sempre e sempre
o território homeopático da extinção
em que os troféus são
joelhos vergados à condição de cera
para os soalhos do progresso
cujo verdadeiro nome é
despovoamento

Vender-te-ão o conforto
a perseverança       o brio
como se tivéssemos por fito
a acumulação do tempo
sem o fruirmos boca a boca
desesperadamente
garantir o futuro      dir-te-ão
sem repararem na estupidez do repto
pois que poder temos nós
sobre as válvulas biológicas
do nosso prazo
para nos arrogarmos a garantir
o que quer que seja
quanto mais o sumo fruto da inexistência
esse futuro-cano-enfiado-na-boca
para ser disparado sem falta
de manhã e ao deitar

Em volta sucedem-se clarões
e abismos inóspitos
os elementos torcem-se na pesca à linha
dos lugares fundamentais
há uma convulsão de panoramas
para o brevíssimo turismo
dos olhos
mas o importante é a matemática mesquinha
do sangue que furtamos uns aos outros
a medalha de carne pútrida
com que esperamos aparecer
na fotografia da época

Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar

[Vasco Gato, in Fera Oculta, douda correria, 2014]

a água cai…

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Rosto, Clareira e Desmaio, de Miguel-Manso

Agosto 12, 2017 Deixe um comentário

Talvez seja pequeno da minha parte, mas não consigo ultrapassar nenhuma menção a síncope vagal sem colocar na acção Cavaco Silva, o que me deixa tenso e, de uma forma leve, frustrado com a existência universal.

Posto isto, a terceira parte de Rosto, Clareira e Desmaio, de Miguel-Manso (2017, Douda Correria), torna-se numa leitura triste e em fuga permanente do meu próprio universo, o que prejudica o texto do autor.

Crendo na abrangência plena da etnografia, isto é, todas as acções são dignas de registo etnográfico, sinto as duas primeiras partes deste texto, que foi escrito para posterior interpretação dramatúrgica, como elementos poéticos de uma vivência do narrador entre os seus pares ou ante os seus objectos de observação.

Categorias:livros, poesia, teatro Etiquetas:,
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