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Posts Tagged ‘dia mundial da poesia’

– o –

Março 22, 2014 1 comentário

Ontem, não acrescentei um
som ao meu poema.
Tenho muito para te dizer.
Guardei para hoje a lamúria.

Estou cada vez mais pobre. Menos cheio de esperança e de amor.
O cão cheira-me as calças,
não me reconhece já. Envelheci
e pareço morto. Sacudo
-lhe as orelhas e beijo-o.
Irreconhecível.
Pele mate. Olhos baixos.
Corcunda nas costas. Enfim,
Triste e vazio.
Levo um saco na mão onde
Poderia estar agarrada outra mão De outro corpo. Outra história.

Guardo as provas de ter existido
Num baú de piratas enterrado
À beira de um mar de força hercúlea.

Sonho. Durmo. Acordo.
E choro.
Seco.

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dia mundial da poesia – ainda em 2012

Março 22, 2012 Deixe um comentário

ontem, passaram por aqui muito menos pessoas do que antes. tornamo-nos velhos. realmente silenciosos. enfim, como diriam uns e outros, piegas. e, por isso, e outras milhares de razões, foram poucas as malgas, mas bem servidas.

05:00

José Ángel Cilleruelo

07:00

Vasco Gato

09:00

Ana Paula Inácio

10:00

Miguel Martins

13:00

Manuel de Freitas

15:00

Ramiro Gairín Muñoz

18:00

Inês Dias

19:00

Ángel Gracia

21:00

Rui Caeiro

22:00

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

23:00

Jorge Fallorca

Categorias:poesia Etiquetas:

O livro original não existe, demite-se do pecado.

Março 21, 2012 1 comentário

O livro original não existe, demite-se do pecado. Tem a idade, pessoal e instransmissível, de a primeira vez. É o livro que transportamos no olhar, mesmo que ele deixe de ver. Já não escrevo às escondidas; libertei-me da vigilância e da denúncia, da acusação

[Jorge Fallorca, in nem sempre a lápis, tea for one, 2011]

Poemeto Greco-Egoísta

Março 21, 2012 1 comentário

Ultimamente têm-me narrado
enjoados trechos de lamúria

Eles são cinco mil mulheres mal tratadas
sete mil e quinhentas crianças mal amadas
treze mil e cinquenta gaivotas assassinadas
um sem número de situações assaz desesperadas

Mas o que tenho eu com os joelhos d’Aquelas?
que tenho eu com os calcanhares d’Aqueles?

Tenho eu os meus próprios problemas
ir à missa das doze; à das catorze
ir a casa num instante terminar os estudos…
… assim não dá… não dá
desisto deste vilancete
é uma pena eu não ter método de trabalho na escrita…

[Daniel Maia-Pinto Rodrigues, in A Sorte Favorece os Rapazes, Cadernos do Campo Alegre, 2001]

Um Momento na Noite

Março 21, 2012 1 comentário

(…) todas elas marchavam, ou por outras palavras, nenhuma ficava abandonada, esquecida ou encalhada, das mais feias às mais horrendas, das mais desnudadas às mais cobertas, das mais perfumadas às que já não tomavam banho há quinze dias – desculpa lá, querido, mas é que hoje não tive mesmo tempo – das mais bem pagas às mais baratas, das bem falantes àquelas cujo linguajar mais se assemelhava aos latidos de um cão vadio, ou às que não sabiam mesmo falar mas que importância é que isso poderia ter já que o momento delas tinha também chegado, o momento quando chegava era para todos, o mesmo instante fatal embora inesperado, o mesmo segundo ou fracção de segundo impossível de prever, dissimulado que estava por entre as luzes gritantes ou as brumas densas da noite (…)

[Rui Caeiro, excerto de Um Momento na Noite, in Um Momento na Noite, edição do autor, 2011]
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CLARIDAD

Março 21, 2012 1 comentário

Hay una luz ciega que de pronto
palpa nuestro cuerpo
y lo abre y lo disgrega.
Y la claridad canta
a la espuma y las llamas.
Y es el esplendor de la muerte
en el desfiladero de sombra,
en el bosque de nubes.

El que vive en una casa ardida y apartada
y se siente construido con vigas de fuego,
respira el anhelo de erigir más blancura,
en el cielo, contra el sol y contra la noche,
sabiendo que la vida es capricho
de un solo dios enloquecido.

[Ángel Gracia, de Sementera, in Arar, Prames – Las Tres Sorores, 2010]

NOSTALGHIA

Março 21, 2012 1 comentário

Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
da igreja abandonada.
O céu, uma tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda a sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.

[Inês Dias, in Em caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado, tea for one, 2011]
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