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Posts Tagged ‘dia mundial da poesia’

Esta noite pouco li…

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Esta noite pouco li, atento ao silêncio das gaivotas; o camião da recolha do lixo não deve tardar. Chove copiosamente, dizem as nuvens vindas do mar, há já alguns dias; abalo limpo

[Jorge Fallorca, in nem sempre a lápis, tea for one, 2011]
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Março 21, 2018 Deixe um comentário

o que eu sei do desejo são coisas distintas do que eu sei

por exemplo sobre
o ver da mesa posta, não está ali
a talhada de melancia de Gauguin só por ser
vermelha a melancia que ali está. tão pouco os teus seios
se confundem com o acto de comer e insignificante
é a toalha como justificação da boca; um linho grosso
para o toque dos lábios. falta o trajecto
que leva à fome, também
aqui não a fome dita, exposta
no menu à cegueira
dos beiços. chega-se aos lábios pelo atalho que vem
do uivo; a matilha de que o sangue é o cúmplice. talvez me tenha perdido,
tinha falado de seios julgo que para dizer
do gosto
da cesura; o que falta para dar uma aresta à
lisura da vontade, o regresso ao desejo
aqui afinal ainda não
provado. talvez seja do lume este querer
mendigar a sede na humidade de um pano

de rosto

[Emanuel Jorge Botelho, in cesuras, INCM, 1982]

Senta-te sobre mim.

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Senta-te sobre mim.
Molha os pés espalha lanternas
sobre o meu corpo – vou falar-te de noite.
Eis o potro seguro a caminho da água toda.

Guarda-te sobre mim.
Só nós duas e o ímpeto dos lilases
quase como se nem ar houvesse entre nós
nem a palavra deus sobre a língua
para que se diga melhor.
Esta é a idade média dos nomes.

Vou falar-te de noite e de útero na mão.
Vou falar-te do homem a servir de proa da tábua
das longuras e das larguezas que descreve
o corpo do homem –

o lugar onde a mulher acaba
e a mulher começa.

[Catarina Nunes de Almeida, in marsupial, Mariposa Azual, 2014]

Quiseste calar a música por julgares traição

Março 21, 2018 Deixe um comentário

Quiseste calar a música por julgares traição
escutá-la quando tudo o resto emudecia.

Ainda ouvias canções com um prazer à flor da pele,
desfasada da dor que te atingia num bloco mudo
de palavras subterrâneas a lutarem entre si, incapazes
de formar uma declaração de paz ou guerra.

A vida parecia ter-se esgotado numa massa
a pressionar o coração anormalmente soterrado,
não desenvolvia mais as suas linhas soltas,
o tempo acumulava-se sobre a contusão,
uma camada de horas supérfluas que te asfixiava,
sem traçar um novo ciclo a partir da corola da ferida.

As batidas do coração começavam a parecer-te
excessivas, uma sobrevida quando tudo à volta morrera
e era preciso calá-las para te sintonizares
com a terra fenecida que te lembrava um berço parado.

Batimentos, melodias, canções: haveria que silenciar
tudo para não teres o prazer da sua escuta
enquanto emudecia ou vozeava a dor,
para que nenhuma beleza pairasse vã no ar.

[Catarina Costa, in Chiaro Scuro, douda correria, 2016]

An When I look At You…

Março 21, 2018 Deixe um comentário

And when I look at you my heart is still,
Still as a waiting bird alert with fear,
And numb and deep and quiet in my breast
A flame of thought is saying: You are here.
Then drowsily my blood begins to flow,
The warmth of sleep comes creeping in my veins,
And weak and heavy does my body grow,
Shot with the throb of tiny, piercing pains….
But I can only sit, too still to sigh,
And follow with my eyes as you pass by.

Rangoon, May 1940

[Molly Drake, in The Tide’s Magnificence, Bryter Music, 2017]

¡Que emoção! ¡Que lenços não tecerei com o muco

Março 21, 2018 Deixe um comentário

¡Que emoção! ¡Que lenços não tecerei com o muco
das tuas doenças! Males que vêm por bem.
Os dias errados na agenda como…
peras verdes, ou a escrita enxuta, de versos,

lenços como eczemas do bicho-da-seda a alastrar
no espírito. Toma em ti o meu afecto, o ofício
da minha baba e aflige-te em lenços inteiros.
Emocionante troca. Verdadeiros donos de si,

não da sombra nem do tacto ou de uma água
que mate a sede… Bichos esquálidos,
de carícias arqueados ao desejo da tremenda

excitação num baixo centro de gravidade.
Os mais assutados: fodiam, enchiam-se
de peras verdes. Veio na História.

[Paulo da Costa Domingos, in Sumo de Limão, ed. Viúva Frenesi, 2017]

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Março 21, 2018 Deixe um comentário

Um poema é um poema é um poema.
Eu sou apenas o prato vazio na mesa obscura
e o silêncio dobrado na mancha do guardanapo.
Convidaste-me para jantar mas eu não fui.

O princípio das coisas é sempre um princípio
e um fim

e eu não poderia não te amar
depois de terminado o jantar.
Não saberi o caminho de volta,
nem encontraria a vontade para
que o poema terminasse

amanhã
continua o jejum.

[F.S. Hill, in Fisioterapia, não(edições), 2016]
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