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Posts Tagged ‘ana paula inácio’

MADAME MOUTON

Março 21, 2012 1 comentário

Passo a partir de agora,
caro leitor,
a escrever poemas com direito a admissão:
só serão aceites os sarcásticos.
És testemunha e, por isso, selas a ouro,
leitor,
esta promessa de tempos escassos e cínicos.
(Quem disse que os meus poemas eram bucólicos,
quem me colou o selo e me expediu para a província?)
Porque a poesia,
Edward, dear,
não me abriga da morte,
é no máximo um cárcere frio
onde nem tu, meu amor, entras
ponho-te um prato de amor de fora
para que te consoles aos fins-de-semana e dias festivos.
Que não seja uma feijoada fria
ou qualquer outro tipo de vingança
porque da janela do meu cárcere
não avisto mar nem Tabacaria.
E para ser franca, leitor,
nem por ti anseio
ou por ti, meu amor [outra vez]
nem por Pavia ou Roma [ao contrário]
que não se fizeram num dia.

[Ana Paula Inácio, in Telhados de Vidro nº11, Averno, 2008]

Trava-língua

Março 21, 2011 Deixe um comentário

Somos quatro copos
para quatro respectivas bocas
e cada copo situa-se ao lado do copo
da legítima boca.
Em frente aos legítimos copos
os ilegítimos,
cada um também com a sua respectiva boca.
Este é o alinhamento
até que uma respectiva boca
dirige à ilegítima
o seu copo
e baralha a posição inicial
oficial.
Então, a boca-par daquela
que recebeu o ilegítimo copo
repõe a situação:
gira o copo, copo, copo
lá.
Mas a boca que recebera o copo ilegítimo
gostara do seu sabor
e retoma o copo
ilegítimo
gira o copo, copo, copo
cá.

um copo assiste ao esquema rindo
secretamente condoído.
Porém o dono dos copos
leva os copos
e o copo não gira mais
nem cá
nem lá.

[Ana Paula Inácio, Telhados de Vidro nº9, Averno, 2007]

poemas com cinema

Novembro 19, 2010 Deixe um comentário

uma das próximas edições da Assírio e Alvim é a antologia “poemas com cinema” (brochado/ 208 pp/ €14).

«Sendo as relações da poesia com o cinema menos evidentes do que aquelas que aproximam a narrativa literária da narrativa cinematográfica, e também menos estudadas, talvez esta antologia possa contribuir para dar maior visibilidade a um diálogo certamente muito mais profícuo do que à primeira vista pode parecer. A poesia moderna e contemporânea tem sido, embora no terreno que lhe é próprio, uma arte da imagem e da montagem — ou então uma arte que, apesar de dominantemente lírica, não exclui a narratividade. Mesmo se a palavraimagem traduz universos conceptuais e técnicos diferentes em cada uma das duas artes, mesmo se a sintaxe entre as imagens se faz de forma diferente, mesmo se é diferente o modo de narrar ou de articular expressão e imagem — e não sendo da mesma ordem a visualidade que o cinema e a poesia podem proporcionar —, o fascínio pela imagem, a importância atribuída à relação entre as imagens e ao seu poder evocativo justificam a cumplicidade tantas vezes evidenciada nos poemas agora reunidos. Por outro lado, importará observar que, mesmo quando a poesia não se aproxima do cinema em função da imagem e da montagem, pode ainda procurá-lo por razões de ordem temática, ou porque a narrativa fílmica lhe abre novos caminhos no que respeita ao cruzamento entre lirismo e narratividade.»

Org. Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo

Os autores presentes são:

Herberto Helder
Edmundo de Bettencourt
António Franco Alexandre
Ana Hatherly
Mário Cesariny
Fernando Assis Pacheco
Armando Silva Carvalho
Alberto Pimenta
José Mário Silva
Gastão Cruz
Alexandre Pinheiro Torres
Pedro Mexia
José Miguel Silva
António Botto
Jorge de Sena
Pedro Tamen
Alexandre O’Neill
Eugénio de Andrade
João José Cochofel
Luís Quintais
Manuel de Freitas
Inês Lourenço
Ruy Belo
Jorge Sousa Braga
José Alberto Oliveira
Ruy Cinatti
Fátima Maldonado
Raul de Carvalho
José Miguel Silva
José Tolentino Mendonça
João Lopes
Carlos de Oliveira
José Gomes Ferreira
Alexandre Pinheiro Torres
Maria Andresen
Fernando Pinto do Amaral
Gil de Carvalho
Manuel António Pina
Luís Quintais
Adília Lopes
Fernando Guerreiro
Helder Moura Pereira
Ana Paula Inácio
Fiama Hasse Pais Brandão
Daniel Jonas
Luiza Neto Jorge
Luís Miguel Nava
Al Berto
Rui Lage
António Osório
António José Forte
Nuno Júdice
Vasco Graça Moura
Ana Luísa Amaral
Miguel-Manso
Manuel Gusmão

Talvez a melhor justificação para esta antologia esteja no modo como os poemas agora reunidos ilustram diferentes formas de diálogo da poesia portuguesa dos séculos XX e XXI com o cinema. A amplitude docorpus poético aqui apresentado e a diversidade das poéticas nele envolvidas comprovam que o cinema tem merecido uma atenção continuada por parte dos poetas portugueses. Foi a esta cumplicidade que procurámos dar relevo.

Senhora Diego Rivera

Março 21, 2010 Deixe um comentário

O que come um génio
para além de amigas e irmãs?
que prato de especial engenho
que entremeadas feitiços
ervas daninhas, pêlo de cabra, suco de espinheiro
o fará ficar
nessa companhia de circo
onde equilibramos os pratos
no gume mais esticado do trapézio
quantas quedas será preciso dar
para fazer do corpo o melhor sítio donde se avista o mundo
elevá-lo a ícone nacional
como o chili e a massa de pimentão?

[Ana Paula Inácio, in Telhados de Vidro nº11]

enfia as tuas mãos

Março 21, 2009 Deixe um comentário

enfia as tuas mãos
não te incomodes
arranca essa coisa que te dói
aprende as artes da mandrágora
nenhum líquido te sobrará
depois de já não haver mais anéis
— nem do meu cabelo, nem do teu —
depois de já não haver mais nada
deixa a marca
dos animais que dormem todo o verão,
a viseira do cavaleiro andante,
a roca e o fuso,
deixa a marca dos animais
o selo, o número, o uivo, a pega
deixa o rio
a seda, a prata, um fruto seco
a embarcação

[Ana Paula Inácio, in Vago Pressentimento Azul por Cima]

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