Início > posto móvel > desenho para um monólgo sem cena. deve ser lido em local público e por/para pessoas que entendam a língua. quem ler deverá manter-se sério ou desesperado. sem sorrisos.

desenho para um monólgo sem cena. deve ser lido em local público e por/para pessoas que entendam a língua. quem ler deverá manter-se sério ou desesperado. sem sorrisos.

Esperei todo o inverno pelo calor. Eu que, antes, sempre tinha desejado todo o inverno como se fora o calor. Mas este já não é o meu inverno. O meu inverno morreu talvez há uns 2 ou 3 anos. Este inverno é estrangeiro.

O calor primaveril chegou e a mim basta-me. É, agora, a única coisa real e boa que sinto física e emocionalmente. Tudo o mais é desespero e insalubre convicção de um futuro melhor. O todo para além disto é… Que lhe hei-de chamar? Uma cochonilha.

O meu cérebro parece o do planctón. Mantenho o corpo vivo. Objectivo único. (Falso.)

Tenho muito sono. Muito sono. Esgoto a capacidade de gestão individual com tarefas mecânicas e repetitivas e, permanentemente, frustrantes. Depois não sobra mais nada, excepto o sono.

A vantagem de acreditar num deus ou algo parecido é que se arranja alguém com quem desabafar, sem pôr em causa a nossa privacidade.

Esperei todo o inverno por um raio de sol que fingisse libertar-me. Nem um que represente essa fantasia. Mas mantenho a fantasia e imagino raios indisponíveis, ocupados com as suas tarefas e momentos de prazenteiro descanso. Imagino que a lista de espera para poder usufruir de um desses raios seja mais longa que a da ceifeira.

Eu gosto da ceifeira. No entanto, mantenho a ideia de, antes de a deixar colher-me, que me é necessário ter feito algo, vivido mais, sentido muito mais.

E sobra-me, como sempre, a esperança. Tantas vezes me salvou, concretizando as minhas vontades. Tantas vezes me falha, porque essas concretizações são fantasmas dos meus sonhos.

E tu? Tu sabes que os meus sonhos vão além do fumo. Nem deus, se se materializasse com todos os seus poderes, me daria os sonhos.

A esperança também morre. Descobri. Sinto-me completamente só. Como foi possível aqui chegar? Luto ainda pelos meus cânones, lembrando como o fazia antes. Mas não sei já escolher o caminho. Só. Num túnel ecoando o ruído das minhas solas sobre o chão. Triste, como não sabia ser possível. Sujo, como nunca antes.

Perseguido pela desconfiança dos outros. Coisa nova para mim. Omito-me para a evitar.

O mundo acontece lá fora. Já não há neóns que entrem dentro de casa. Continuo a comer laranjas. Sei, no entanto, que nunca terei uma cabeça de vidro; talvez um aquário com um peixe palhaço em água.

– "Como te chamas?"
– "Palhaço Roberto."
– "Porquê?"
– "Nisto me transformei."
– "Porquê?"
– "A poesia é mais do que linhas escritas no papel, obriga à vida. Quando morres para a vida, a poesia também morre."
– "Mas estás vivo."
– "O corpo respira. Assim engano os transeuntes."

Anúncios
Categorias:posto móvel
  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: