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Vida Transitória

há uma fotografia de Ruy Belo
e há também aquela praia muito ténue de Não há morte
nem princípio

ou há uma fotografia do meu pai numa
beira-mar de Moçambique

sentado com um outro que nunca soube
quem era, óculos escuros — a mocidade

— esse outro

o meu pai olhando o mar para lá do
fotógrafo como se o fotógrafo

e
agora
quem vê a fotografia segurando-a
com a mão (vindoura)

como se não existissem
não existissemos mas que fosse minha
também

aquela praia onde Ruy Belo
ainda não usava barba à Ruy Belo
à

Allen Ginsberg (gente que já morreu
gente vindoura)

tudo gente quer habitou longamente
em algum momento uma praia

uma praia
que eu sei que há e que aconteceu
também eu morri

quando eu também fui jovem
e poeta numa fotografia ou num reflexo

de garrafa

a minha imagem
à beira de uma Verão segurando
desde o peito a vida

[Miguel-Manso, de Fechando a Cadeira de Pano, in Contra A Manhã Burra, Mariposa Azual, 2009 (2ªed)]
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