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iii. Dois

Resta a solidão entre as luzes da noite.
O rastro acusador dos faróis dos carros, no regresso,
onde o encontro se rendeu ao auto-rádio que debita
o espaço e o tempo de uma realidade que não existe.
Que acontece após a separação, ao abrir a janela às lâminas
de vento e chuva, excedendo os limites de velocidade.

O rosto prossegue o prolongamento dos sinais.
Horas que habitou e que revelam, nessa luz, dias esgotados,
o percurso ilusório de um corpo, como um resto de inverno,
que se repete finito e sitiado.

Depois uma voz resignada, o nome impronunciado e o beijo
através da linha telefónica, a que lhe sucedde a queda,
o agundo silêncio entregue às arestas do quarto, nas sombras
que se transformam em visões inexplicáveis,
à setença do dia seguinte. A contínua transgressão.

[Rui Miguel Ribeiro, de Tríptico de Horas Falsas, in Criatura, n.º 2, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2008]
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