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Foi no dia em que morreu Cesariny

Foi no dia em que morreu Cesariny e era
sobre ele um dos poemas que me faltava
neste corpo de pedras que quero inteiro
trazer da minha parte à exígua chama deste

poço. Estava na montra de uma livraria
de Madrid, fotografia e notícia. Um claro e
mínimo espelho — sombra projectada sobre as vidas nossas (há quantos

anos?) quando ele, Mário, pediu um copo
de água e dentro a dentadura desceu (quem
não guarda da sua presença um eco de raízes,
doce imagem que se multiplica e flui?)

e leu, em voz de alma, negror e riso,

o navio dos seus dez mil capitães. Nesse dia
dos anos sessenta, na Estefânea, eram ligeiras
as mãos dos remadores, hoje
a barca está vazia, os remos suspensos, que

importam cores da manhã a anunciarem
favorável vento? A voz repete
uma e outra vez em voz muito baixa
Nenhum cais o abriga/ O seu porão traz
nada/ nada leva à partida/ Vozes e ar pesado/
é tudo o que transporta

[João Miguel Fernandes Jorge, de Na Fronteira do Vazio, in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, 2010]
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