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21 de março (1984)

     como odeio os dias! se ao menos houvesse um recanto em mim onde pudesse esconder-me do mundo… se ao menos pudesse gritar.
     terra pesada sobre o peito. pássaro com cabeça de insecto sobrevoa a casa. pesadelos? visões?
     um fruto de néon semelhante a uma laranja embate contra o armário. o armário chora. levanto-me e abro-lhe as portas envidraçadas. um rio de rostos escorre dele. outro pássaro com uma asa branca e a outra azul, o bico em forma de lâmpada. o rosto de j. surge do pólen solidificado nos dedos duma mão líquida. erva corrói a cal junto à mesa. o rosto de j. avança para mim, esvai-se. acordo.
     uma dor inexplicável expande-se no peito. respiro fundo. são dez da manhã. levanto-me vagarosamente. um zumbido atordoa-me, caminho hesitante para o duche.
     fumo um cigarro. acabei de acordar. ouço o mar, quero a eternidade.
     vou tentar um olhar novo sobre as coisas que partilham a vida comigo. tenho a cara inchada pela turbulência dos sonhos. vou tentar, apesar de tudo, dar uns passos com a cabeça erguida, sem rancor, sem ódio, assim… caminhar como se voasse.

[Al Berto, de O Medo (2), in O Medo, Assírio & Alvim, 2005]
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