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Carta

Querida Alicia,
Esta tarde, quando acordei, nada tinha mudado.
Tu ainda estavas morta.
Não tinhas regressado, soltando o frio do
teu cabelo, abraçando-te para espantares o gelo do corpo.

É quinta-feira com probabilidades de neve.
Os meus pés frios, como os teus. Prometi-
-te um livro, mas comboios de ideias ficam
presos em lugares recicláveis e viajam, e
não falam comigo. Nunca chorei.

Fiquei chocada, a dor seca chegou e, depois,
bruscamente, nada. Ainda estavas morta,
algures, o corpo alimentado-se de uma luz
que não podia aquecer-te. Uma tarde aborrecida
quando acordei e não estavas aqui para conversarmos.

A descrença puxou de uma cadeira, pôs o seu casaco preguiçosamente
na nuvem de pó duma mesa, tossiu e sorriu.
A minha cabeça livre da turbulência dos pensamentos, poderia
lembrar-me de ti? Não. Eu não conseguia ver a imagem de um rosto
ou ouvir um riso –

ó, Allie, se pudesses estar aqui
para perseguir o ar cruel que me acordou
e não eras tu, desculpa-me por estar atrasada.

[Louise Cole, Jewelled Tree, Spout, 2000, versão minha]
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