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V

Eis, então, o meu pior sentimento. Não espantar para não romper a monotonia. A minha, a geral. Nisto não há nobreza. Há uma certa ideia de conforto. De preguiça. Nem asco nem galo de três patas nem dúvida instilada nem o Céu entrevisto. Para melhor, bem basta assim. O medo da felicidade em gérmen. Refúgio na exigência da instantaneidade impossível. Transferência da obrigação. Da responsabilidade. Assobio incompetente. Farrapo de assobio. Fio pendendo de um farrapo de dor. Nisto há verdade. E, se a verdade não é nobre, respondo: e depois? A verdade é como os fungos, parasitas e decompositores, que ora envenenam ora são regalo. A nobreza – diria a Anna – é o doce de amora com chá. Pressupõe confecção e fermentação e, descansando, antecipa uma qualquer outra acção construtiva. Da capo. Dá náuseas. Bastam-me as bagas, tantas vezes amargas, tal qual Deus no-las dá. Vós, como vos quero. Exijo. Deu-La-Deus esmoleres. A dádiva esfaimada. A mentira da verdade. Deu-La-Deu. Martins.

[Miguel Martins, O Caso da Fruta, de Proibida a Entrada a Animais (excepto cães-guia), Língua Morta, 2010]
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