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os amantes entredevoram-se alegremente

os amantes entredevoram-se alegremente
não é verdade o seu amor de corpo inteiro
é verdade o amor não o seu corpo inteiro
lá onde estejam e por uma sorte obscura
que a cada um ultrapassa ó alegria animal
um ao outro abocanham-se pedaços reciprocamente
se arrancam seios narizes cabelos olhos
membros sorrisos línguas bocas entreabertas
é alegre e despreocupadamente que o fazem
e assim incansáveis todas as horas dos seus dias
um ao outro devoram-se e depois mais lentos
digerem devoram e digerem lambem e esquecem

[Rui Caeiro, in Livro de Afectos]

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Categorias:poesia Etiquetas:,
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