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a clareira

Poemas rodearam-no de todos os lados, não havia por onde fugir. Estava como aquela virgem perdida na floresta que chega a uma clareira e começa a ver os meliantes. Vêm sem pressa, paulatinamente. Olha-se-lhes para a cara, entende-se-lhes logo o jogo. Conformada, nos olhos da inteligência da situação e a vaga luz de uma remotíssima alegria – a do dever a cumprir – prepara-se para abrir as pernas. Assim estava ele nesse dia. Sem saída possível, sem escapatória. Só lhe restava mesmo escrever, escrever como um danado. Poemas que sugerissem o bailado das chamas que dá vida ao inferno. Meio conformado, meio alvoroçado, preparou-se. Para a poesia, para que ela
entrasse
ou saísse
ou saísse e entrasse
ou fizesse o que ela quisesse.

[Rui Caeiro, in Telhados de Vidro nº 12]

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  1. Março 29, 2010 às 21:20

    Cercado de palavras a clareira é ainda poesia e a poesia um espaço mais para viver. Escrever é plasmar onde se grava o ânimo que trazemos à conversa. Sai-se e entra-se como no amor.

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