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O halterofilista

É vazante na praia de Polana. São
cinco da manhã e a claridade mal
ilumina o horizonte próximo. Ele
está de pé e só, seminu, na areia
molhada. Pequeno e possante garrano

de raça, talvez touro de Guisando.
Grenha alourada, olhos claros de mulato
albino, kepe-chacal por acidente.
A seu lado aguardam os discos dos halteres
que, mãos grossas, dedos curtos, vai erguer

mais alto, numa concentração ritmada
de quase prece, olhos cerrados,
músculos, artérias rompendo a pele,
punição corporal exercida até ao cilício.
Durante o dia serralheiro-mecânico

nas Oficinas Gerais dos CFM, dia
que é prolongamento da noite,
iluminada apenas pela chama
do maçarico e a clarabóia alta.
Ranger de metais, ferro batendo

no ferro, resfolegar de motores.
Agora, porém, perfilado contra a luz
que se levanta, longe do fumo
e da fuligem, é bosco, é bodybuilder,
apenas Emílio Tarcitano, o atleta.

[Rui Knopfli, in O Monhé das Cobras]

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