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Manhã no café de quatro ou cinco mesas

    Manhã no café de quatro ou cinco mesas,
cúmplice da praça não vazia somente
por envergar o halo da sua solidão:
casas derruídas pelas mãos de seus mortos,
sinos cingindo os gaivões e as nuvens.

    Sentar-me sem esperar nada e ninguém.
Vêm ter comigo estas palavras: guardo-as
de conduto para a fome que não sei quando quando terei.
Quem estou eu aqui para reconhecer
o corpo, a ausência que sustento no sangue?

    Talvez em breve ocupem estes lentos lugares
gargalhadas e gestos que agridam a penumbra
entre os espelhos sonolentos grata.
Continuarei a vislumbrar que se aproxima
quem não verei jamais neste ou noutro horizonte.

[José Bento, de Fragmentos, in Alguns Motetos]

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