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Estás sentado onde a ponte imensa se quebra com o tropel

Estás sentado onde a ponte imensa se quebra com o tropel
dos cavalos.
É um país dorido, com as suas pálpebras baixas, voltadas
para a terra.

Não há centelha que brilhe no azevinho que descuidas.
Apenas lava, um martírio de planícies lunares, queimadas.
Num vaso de ouro recolhe cinzas.

As solidões trancam-se à volta com as sete chaves da
agonia, esquecendo-te.
são como letras de um nome, uma espiral de vogais amargas.

Caminha peregrino, faz o teu caminho.
Amanhece, abre-se o grande leque do mundo, um sussurro
quando pelas costas resvalam punhais.

És alto, altivo.

Habitas a pedra nua das mansões divinas,
e tens a forma dos dias, as margens perfeitas e tensas.
O manso rio enlouqueceu,
a tua loucura inaugura o caos.

Redemoinham destroços, visões de náufragos, um clamor de
ossadas quase vivas.
Constróis um derradeiro templo, um pesado destino de
águas e gritos e
despenhas-te no fundo, no fragor da espuma.

Porque a água grita com a sua voz fria, ruge todas as
imprecações.
É uma laboriosa canção esse destino de baías violentas,
onde um homem pensa,
pensa que a sua vida se despede e desabriga.

[José Agostinho Baptista, de O Centro do Universo, in Biografia]

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