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As Mortes (1)

Tenho sinceramente pena das pessoas que se morrem e mais das quando morrem
porque estão a fazê-lo de uma forma indefesa e patética algumas
não obstante com grande compenetração fiadas no rigor que deve ter esse gesto
depois vai-se a ver incontornável (chamado então agonia)

descreio das mortes precedidas de uma alta palavra derradeira
«mais luz» por exemplo como os circunstantes dizem que ouviram ao poeta Goethe
vi um homem que se não queria despedir outro que não suspeitava
de nada e perguntava pelo tempo em Campo de Ourique «há sol? hoje há sol?»
arranhando as abas do nariz e pedindo uma sede de água que entre a cozinha
e a copa já não foi precisa

[Fernando Assis Pacheco, in Respiração Assistida]

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