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a casa

Entre o empedrado e a casa
não existe jardim
e tens de descer dois degraus
antes de encontrares a porta.
Cerrada e com dois batentes.
Aproxima a mão da gárgula esquerda.
O tempo passará sem que nada aconteça.
Debaixo de um vaso de begónias,
a chave.
Ainda assim terás de fazer força
com o ombro esquerdo
contra a madeira de carvalho.
Não esperes, porém que esse ruído
desperte qualquer lembrança,
em ti ou na casa.
Há mais de trinta anos que ninguém
aqui entra.
Apenas tu guardavas a memória,
sem o saber, este caminho.
Depois de teres atravessado escarpas,
florestas de enganos, desertos,
hoje o regresso?
Com palavras e prolongados silêncios
talvez o descubras.
Um conselho de amigo: ao entrares
não chames, não perguntes
ou digas o nome
de alguém.
Esta é a casa
que nalgum lugar da terra
te está destinada.
Senta-te à mesa com os mortos e escreve.

[Jorge Gomes Miranda, in O Caçador de Tempestades]

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