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dia mundial da poesia – 21 de março de 2009
foi assim, aqui!
para usufruto.
Encomenda Postal
destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográficadepois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceue numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
[Al Berto, de Sete Poemas do Regresso de Lázaro, in O Medo]
sobre a razão
Num país que não conhece
sequer o sabor da sua própria nudezerramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo —tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol.
[Eugénio de Andrade, de Véspera da água, in Poesia]
Z
As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaroe depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de ventoe depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaçosa tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.
[António Maria Lisboa, de Ossóptico e Outros Poemas, in poesia]
Tango
O teu sexo na minha boca
é a flor que arde: a sua chama
explode táctil abre ruínas onde antes
cidades se erguiam habitadas.Não tem medida a forma
com que as pernas
pontas abertas de uma estrela
se atiram no vazio deste quarto.O teu sexo na minha boca
é um canto. Sonoros seus líquidos
abrem-me na língua um sulco fundo
que traz a luz que espasma na tua bocanoite a querer fechar-se lá por dentro.
Mas nem isso me aquieta
nem a sombra que cai nem esse grito
chegam para calar o meu desvairo.O teu sexo na minha boca
é o meu sexo: o seu cheiro
acre que inundando
meu corpo o abre a todo o seu espanto.
[Bernardo Pinto de Almeida, de É Isto, in Hotel Spleen]
enfia as tuas mãos
enfia as tuas mãos
não te incomodes
arranca essa coisa que te dói
aprende as artes da mandrágora
nenhum líquido te sobrará
depois de já não haver mais anéis
— nem do meu cabelo, nem do teu —
depois de já não haver mais nada
deixa a marca
dos animais que dormem todo o verão,
a viseira do cavaleiro andante,
a roca e o fuso,
deixa a marca dos animais
o selo, o número, o uivo, a pega
deixa o rio
a seda, a prata, um fruto seco
a embarcação
[Ana Paula Inácio, in Vago Pressentimento Azul por Cima]
outra coisa
Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre a sombra de pedra e golpe de asa.
Exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casadizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo Mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiraslançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro actopôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato
[Mário Cesariny, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica]
foi um dia delirante
foi um dia delirante
a lua apareceu num instante
durante a criança admirada
e desapareceu logo a seguir
e a última mãe com filhos na cidade
foi pela mata descalça e devagar
sem dizer a ninguém
para ouvir sozinha o barulho do mar
só um bocadinho
e voltar a correrera a coisa mais estranha
e fabulosa até aí
pela cidade completamente calma e branca
e o sol não se pôs nesse dia
nunca mais se falou nisto
[Joaquim Castro Caldas, in diz que até jesus]
stabat mater
Benilde, ao balcão reza de pé
a novena do Menino Jesus
de Praga. Alguém, que nunca
mais vi, tinha a mesma devoção
— e um mapa de heroína
a servir-lhe de braços.Custa-me interromper a
novena para pedir, claro,
mais uma cerveja.
Tão diferentes modos de rezar,
debaixo do relógio que há vários anos
nos diz que ainda não são quatro.Prevêem, na rádio, uma descida
da temperatura. É tudo o que
me importa saber.
Enquanto Benilde, ao balcão,
continua a rezar ao Menino Deus.Fez-se silêncio. Tem
uma garrafa vazia ao lado.
Acendo um cigarro
em memória de Pergolesi
e escrrevo, sem querer,
o primeiro poema do ano.
[Manuel de Freitas, in Juxta Crucem Tecum Stare]
o sexo do texto
Espero-te
esmagada de fúria.
Se vieres, com a descarnada volúpia de um tigre, acenderás de novo
o meu desejo.
Uma brasa! uma brasa!
me queimará o pêlo. Não o desviarei.
Redondo é o calor e o sexo
deste texto. A ele me acolho,
desprotegida.
A nudez é rugido. Minhas… as garras: o verde
brilho enrijecendo no que faz explodir
o olhar do gato
aninhado em teu peito.
[Eduarda Chiote, in Não me morras]