Archive for the ‘poesia’ Category
Enche-me, preenche-me de poesia…
Enche-me, preenche-me de poesia a memória do meu companheiro Olímpio. Não podendo eu, nem sabendo, viver sem poesia (vida e poesia são-me uma e a mesma coisa, possa embora prescindir de poemas), tê-la-ei sempre cá dentro, ele cá dentro, pedacinho do pão que me alimenta.
A meio da noite, o operário em construção interrompeu de vez o trabalho. O ser amoroso, esse, perpetua-se no infidável rio subterrâneo onde flui, indizível, a pulsão poética que vale a vida.
E se isto pressupõe literatura, é favor rasgar.
[Vitor Silva Tavares, de Um Pedacinho de Pão, in Olímpio]
…Que outonos non son outonos,
…Que outonos non son outonos,
son pasadoiros do tempo
onde se recollen folgos
nas follas que leva o vento
e onde se atrapan ensoños
para combater os medos”.
[Mero Iglesias, in Na Lonxitude do Tempo]
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…Os outonos não são outonos,
são caminhos do tempo
onde se colhe vida
nas folhas que o vento leva
e onde se capturam sonhos
para combater os medos”.
al berto, um dia depois
um dia depois do aniversário da morte de Al Berto, fica um poema e o link para todos os posts com menção ao poeta neste blog: aqui.
nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secouo olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto de criança que fui reaviva
um pouco a alegria no coração
[Al Berto, in Sem título e bastante breve e Outros poemas]
para os tempos vindouros
Livre Arbítrio
Notei, hão alguns dias, mais uma discussão pública entre o grupo do Freitas (Averno) e o das Quasi (Reis-Sá & Melícias).
Partindo da publicidade errónea de que Tiago Araújo publicou agora o seu primeiro livro (Livre Arbítrio, Averno), surge a correcção de Reis-Sá, informando de que se trata afinal do seu terceiro livro, os dois anteriores surgiram nas Quasi.
Melícias insurge-se, no blog de Mário Silva, contra a crítica de Guerreiro na Actual, que insiste na publicidade do facto errado. Mas Melícias não se fica por aí, retomando(?) a polémica iniciada hão 4 ou 5 anos, entre os dois grupos de amigos mais visíveis, no meio da nova poesia portuguesa. Melícias está ofendido, não só pelo facto da insistência em publicitar um erro que a história desmente, como pela Actual estar, assim julga, predominantemente afecta ao grupo de Freitas e, por isso, tantas vezes parcial na escolha dos livros que mostra como no conteúdo da artigalhada.
Penso que estas rixas são coisa boa, tentam demonstrar uma vitalidade do debate de ideias, que, temo, não existe de verdade. O que parece existir é apenas um reflectir sobre os eventos de forma a prejudicar a imagem em outro, mas sem análise de conteúdo estético da literatura divulgada pelas partes.
Qual a razão que leva a Averno a publicar um autor sem impacto no meio, que antes era das Quasi? O que marca agora a escrita desse autor? Ou é apenas uma situação fruto das circunstâncias e do tempo? Estará a Averno a mudar?
E o autor, que tem a dizer? Será que renunciou os livros publicados nas Quasi?
Nomes próprios: Manuel, Jorge, António, José.
Nota final: mais se poderia escrever.
dia mundial da poesia – 21 de março de 2009
foi assim, aqui!
para usufruto.
Encomenda Postal
destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográficadepois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceue numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
[Al Berto, de Sete Poemas do Regresso de Lázaro, in O Medo]
sobre a razão
Num país que não conhece
sequer o sabor da sua própria nudezerramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo —tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol.
[Eugénio de Andrade, de Véspera da água, in Poesia]
Z
As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaroe depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de ventoe depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaçosa tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.
[António Maria Lisboa, de Ossóptico e Outros Poemas, in poesia]
Tango
O teu sexo na minha boca
é a flor que arde: a sua chama
explode táctil abre ruínas onde antes
cidades se erguiam habitadas.Não tem medida a forma
com que as pernas
pontas abertas de uma estrela
se atiram no vazio deste quarto.O teu sexo na minha boca
é um canto. Sonoros seus líquidos
abrem-me na língua um sulco fundo
que traz a luz que espasma na tua bocanoite a querer fechar-se lá por dentro.
Mas nem isso me aquieta
nem a sombra que cai nem esse grito
chegam para calar o meu desvairo.O teu sexo na minha boca
é o meu sexo: o seu cheiro
acre que inundando
meu corpo o abre a todo o seu espanto.
[Bernardo Pinto de Almeida, de É Isto, in Hotel Spleen]
