teoria da desilusão

Archive for the ‘poesia’ Category

Enche-me, preenche-me de poesia…

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Enche-me, preenche-me de poesia a memória do meu companheiro Olímpio. Não podendo eu, nem sabendo, viver sem poesia (vida e poesia são-me uma e a mesma coisa, possa embora prescindir de poemas), tê-la-ei sempre cá dentro, ele cá dentro, pedacinho do pão que me alimenta.
A meio da noite, o operário em construção interrompeu de vez o trabalho. O ser amoroso, esse, perpetua-se no infidável rio subterrâneo onde flui, indizível, a pulsão poética que vale a vida.
E se isto pressupõe literatura, é favor rasgar.

[Vitor Silva Tavares, de Um Pedacinho de Pão, in Olímpio]

Escrito por j m

Outubro 25, 2009 em 17:03

…Que outonos non son outonos,

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…Que outonos non son outonos,

son pasadoiros do tempo

onde se recollen folgos

nas follas que leva o vento

e onde se atrapan ensoños

para combater os medos”.

[Mero Iglesias, in Na Lonxitude do Tempo]
____

…Os outonos não são outonos,

são caminhos do tempo

onde se colhe vida

nas folhas que o vento leva

e onde se capturam sonhos

para combater os medos”.

Escrito por j m

Outubro 25, 2009 em 16:38

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al berto, um dia depois

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um dia depois do aniversário da morte de Al Berto, fica um poema e o link para todos os posts com menção ao poeta neste blog: aqui.

nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou

o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto de criança que fui reaviva
um pouco a alegria no coração

[Al Berto, in Sem título e bastante breve e Outros poemas]

Escrito por j m

Junho 14, 2009 em 16:25

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para os tempos vindouros

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para os tempos vindouros

Antes da pandemia recolho material.

Nunca escrevi rigorosamente nada que tivesse valor.

A pandemia será para ler, se vivo.

A minha herança serão os poucos livros recolhidos, se morto.

Escrito por j m

Maio 26, 2009 em 22:37

Livre Arbítrio

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Notei, hão alguns dias, mais uma discussão pública entre o grupo do Freitas (Averno) e o das Quasi (Reis-Sá & Melícias).

Partindo da publicidade errónea de que Tiago Araújo publicou agora o seu primeiro livro (Livre Arbítrio, Averno), surge a correcção de Reis-Sá, informando de que se trata afinal do seu terceiro livro, os dois anteriores surgiram nas Quasi.

Melícias insurge-se, no blog de Mário Silva, contra a crítica de Guerreiro na Actual, que insiste na publicidade do facto errado. Mas Melícias não se fica por aí, retomando(?) a polémica iniciada hão 4 ou 5 anos, entre os dois grupos de amigos mais visíveis, no meio da nova poesia portuguesa. Melícias está ofendido, não só pelo facto da insistência em publicitar um erro que a história desmente, como pela Actual estar, assim julga, predominantemente afecta ao grupo de Freitas e, por isso, tantas vezes parcial na escolha dos livros que mostra como no conteúdo da artigalhada.

Penso que estas rixas são coisa boa, tentam demonstrar uma vitalidade do debate de ideias, que, temo, não existe de verdade. O que parece existir é apenas um reflectir sobre os eventos de forma a prejudicar a imagem em outro, mas sem análise de conteúdo estético da literatura divulgada pelas partes.

Qual a razão que leva a Averno a publicar um autor sem impacto no meio, que antes era das Quasi? O que marca agora a escrita desse autor? Ou é apenas uma situação fruto das circunstâncias e do tempo? Estará a Averno a mudar?

E o autor, que tem a dizer? Será que renunciou os livros publicados nas Quasi?

Nomes próprios: Manuel, Jorge, António, José.

Nota final: mais se poderia escrever.

dia mundial da poesia – 21 de março de 2009

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Escrito por j m

Março 24, 2009 em 11:30

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Encomenda Postal

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destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta

[Al Berto, de Sete Poemas do Regresso de Lázaro, in O Medo]

Escrito por j m

Março 21, 2009 em 23:59

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sobre a razão

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Num país que não conhece
sequer o sabor da sua própria nudez

erramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo —

tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol.

[Eugénio de Andrade, de Véspera da água, in Poesia]

Escrito por j m

Março 21, 2009 em 23:30

Z

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As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

[António Maria Lisboa, de Ossóptico e Outros Poemas, in poesia]

Escrito por j m

Março 21, 2009 em 23:00

Tango

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O teu sexo na minha boca
é a flor que arde: a sua chama
explode táctil abre ruínas onde antes
cidades se erguiam habitadas.

Não tem medida a forma
com que as pernas
pontas abertas de uma estrela
se atiram no vazio deste quarto.

O teu sexo na minha boca
é um canto. Sonoros seus líquidos
abrem-me na língua um sulco fundo
que traz a luz que espasma na tua boca

noite a querer fechar-se lá por dentro.
Mas nem isso me aquieta
nem a sombra que cai nem esse grito
chegam para calar o meu desvairo.

O teu sexo na minha boca
é o meu sexo: o seu cheiro
acre que inundando
meu corpo o abre a todo o seu espanto.

[Bernardo Pinto de Almeida, de É Isto, in Hotel Spleen]

Escrito por j m

Março 21, 2009 em 22:30