Na cama
A minha doença obriga-me à imobilidade absoluta na cama. Quando o tédio assume proporções excessivas que vão desequilibrar-me, se não intervierem, eis o que faço:
Esmago o meu crânio e estendo-o à minha frente, tão longe quanto possível, e quando está bem achatado, mando sair a minha cavalaria. Os cascos batem nítidos neste chão firme e amarelado. Os esquadrões lançam-se imediatamente a trote, e os cavalos saltitam e escoiceiam. E esse barulho, esse ritmo nítido e múltiplo, esse ardor que respira o combate e a Vitória, encantam a alma daquele que está pregado à cama, e não pode fazer o menor movimento.
[Henri Michaux, in As Minhas Propriedades]
nunca li Michaux. a ideia (ápenas a ideia, não o estilo narrativo) de imobilidade do corpo e esse percurso pelo interior da mente, como que em delírio, lembra-me Beckett. provavelmente, até são muito diferentes (?)
maria m.
Outubro 26, 2009 em 13:56