Um Dó Li Tá
Este é o caminho. Tem uma rotunda e três cruzamentos. Umas lombas e quatro curvas. Este é o caminho onde morrerás. Entretanto, terás sido pouco feliz e mais triste do que quiseste. Sorri.
Na cama
A minha doença obriga-me à imobilidade absoluta na cama. Quando o tédio assume proporções excessivas que vão desequilibrar-me, se não intervierem, eis o que faço:
Esmago o meu crânio e estendo-o à minha frente, tão longe quanto possível, e quando está bem achatado, mando sair a minha cavalaria. Os cascos batem nítidos neste chão firme e amarelado. Os esquadrões lançam-se imediatamente a trote, e os cavalos saltitam e escoiceiam. E esse barulho, esse ritmo nítido e múltiplo, esse ardor que respira o combate e a Vitória, encantam a alma daquele que está pregado à cama, e não pode fazer o menor movimento.
[Henri Michaux, in As Minhas Propriedades]
Conheci um louco que julgava que o fim do mundo tinha chegado.
Hamm
Conheci um louco que julgava que o fim do mundo tinha chegado. Ele pintava. Eu estimava-o. Ia vê-lo ao manicómio. Pegava-lhe na mão e arrastava-o até à janela. Olha!… Aí! Todo esse trigo que se levanta! E ali! Olha!… As velas dos navios! Toda esta beleza! Tudo! (Pausa). Desprendia-se da minha mão e voltava para o seu canto, horrorizado. Apenas tinha visto cinzas| (Pausa). Só ele foi socorrido. (Pausa). Esquecido. (Pausa). Parece que estes casos são… quero dizer… não são tão… tão raros…
[Samuel Beckett, de Fim de Festa, in Teatro de..., trad. F. Curado Ribeiro]
Enche-me, preenche-me de poesia…
Enche-me, preenche-me de poesia a memória do meu companheiro Olímpio. Não podendo eu, nem sabendo, viver sem poesia (vida e poesia são-me uma e a mesma coisa, possa embora prescindir de poemas), tê-la-ei sempre cá dentro, ele cá dentro, pedacinho do pão que me alimenta.
A meio da noite, o operário em construção interrompeu de vez o trabalho. O ser amoroso, esse, perpetua-se no infidável rio subterrâneo onde flui, indizível, a pulsão poética que vale a vida.
E se isto pressupõe literatura, é favor rasgar.
[Vitor Silva Tavares, de Um Pedacinho de Pão, in Olímpio]
…Que outonos non son outonos,
…Que outonos non son outonos,
son pasadoiros do tempo
onde se recollen folgos
nas follas que leva o vento
e onde se atrapan ensoños
para combater os medos”.
[Mero Iglesias, in Na Lonxitude do Tempo]
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…Os outonos não são outonos,
são caminhos do tempo
onde se colhe vida
nas folhas que o vento leva
e onde se capturam sonhos
para combater os medos”.
pensa em algo bom
quem és tu? um senhor? uma senhora? chei@ de dor?
não sei se sou ‘nhora ou sou ‘nhor.
sei que não sou ‘tôr.
a tua vida vai com o vento, no dilúvio das almas lisas, entre sorrisos e risos e expectativas sem fim.
Fernanda, de Ernesto Sampaio
Apesar de longe, nunca perto ou tão só arredio, mantenho a distância equidistante entre todos os pontos.
Teria sido do meu agrado, ver aqui exposto a última colecção de ofertas que pelo natal recebi. Não o fiz, e talvez não seja
necessário. De entre os objectos que agora guardo com estima, encontra-se a última obra de Ernesto Sampaio, Fernanda. O nome deste autor não me era desconhecido, com algumas publicações na Fenda, o seu nome já tinha passado por mim inúmeras vezes. Contudo nunca tinha lido nada. Comecei pelo fim.
Fernanda é Fernanda Alves, a actriz, companheira de Ernesto Sampaio. O livro é uma recolha de textos em prosa-poética e poesia. Foram escritos durante os primeiros meses do primeiro ano após a morte de Fernanda.
Os textos representam o amor único e todo que o autor sentia por Fernanda. Ernesto foi ficando exangue. E faleceu de amor perdido, cerca de ano depois da morte de Fernanda.
o melhor
É o que se deseja em tempos de eleições em Portugal. Isto nos intervalos do futebol e das novelas ficcionadas e políticas. Venham os cabelinhos à foda-se, homens com favas na boca, outros eleitos sexy ou tão só o Cristiano e sejam felizes.
Mas não me convidem.
A rotativa existência do fumo. Os pensamentos e o uso deles.
Ontem, foi um dia curiosamente atípico. Almocei sozinho no refeitório da empresa, onde habitualmente o faço acompanhado. Ouvi a soluços a conversa, em alto volume, de umas cinco raparigas sobre outras não-presentes, talvez também fossem cinco, mas só ouvi dois nomes distintos – só me lembro de um, na frase “o assusto que apanhei com a Cristina a falar para o monitor”. Nesta altura, pensei-me no meio daquele grupo e julguei-me capaz de conversar sobre nada com alguma agilidade – o meu cunho de parvoíce estaria presente. Sinto-me cada vez mais preparado para não falar de nada, conversando sobre isso mesmo, talvez qualquer coisa e um ou outro porque não.
